Quando uma cidade escolhe um tema coerente com sua vocação produtiva, com ativos locais e com uma narrativa de futuro, ela atrai olhares e ecossistemas inteiros

Cidades: o legado que fica quando um evento termina

Quando uma cidade escolhe um tema coerente com sua vocação produtiva, com ativos locais e com uma narrativa de futuro, ela atrai olhares e ecossistemas inteiros. / Foto: Hully Paiva (SECOM/Prefeitura de Curitiba)

Por Beto Marcelino, presidente do conselho do iCities


Toda cidade-sede de um grande evento conhece o mesmo roteiro: antes do dia D, vem a expectativa, incluindo, algumas vezes, obras, movimento de organizadores, etc. Durante, temos os holofotes, o aumento na circulação de pessoas, turistas e visitantes. E hoje eu quero falar sobre o que acontece depois. Pois é justamente aí, no momento em que o palco se desmonta, que começa a pergunta mais importante (e mais negligenciada): o que fica, de verdade, no médio e longo prazo para aquela cidade? Porque, para mim, um ótimo evento não é apenas aquele que acontece com sucesso e sem intercorrências, mas sim aquele que deixa o local melhor do que estava antes.

Eu gosto de pensar no legado em três camadas. A primeira é a do aspecto físico: a infraestrutura que permanece e altera o funcionamento cotidiano. A segunda é no institucional: capacidades que a cidade desenvolve, no âmbito de gestão, governança, método, rotinas de colaboração e que seguem operando depois. A terceira fica no campo simbólico: reputação, posicionamento e identidade, que atraem investimentos, talentos e parcerias. Quando um evento é planejado com propósito, essas três camadas se conversam. 

Curitiba oferece bons exemplos de como o legado pode ser construído em cima de uma agenda urbana concreta, e não apenas de um “calendário de ativações”. Há seis anos sendo a sede do Smart City Expo Curitiba, na edição de março de 2025 recebeu o sprint urbano. Este foi um projeto que nasceu como movimento colaborativo entre diversos profissionais com a intenção de propor soluções para a recuperação de algumas áreas centrais da cidade. Foram propostas 99+1 ideias, que posteriormente foram entregues à gestão municipal como insumo real de política urbana. 

O sprint urbano não foi apenas um encontro. Ele operou como metodologia de trabalho intensiva e colaborativa, inspirada em charretes e metodologias ágeis, com foco em diretrizes práticas para a cidade. Ou seja, o ganho não está somente no conteúdo produzido, nas trocas feitas pelos diversos profissionais, mas na potência em juntar atores, transformar diagnósticos em propostas e criar continuidade dos projetos.

Na camada física do legado, um segundo exemplo do Smart City Expo Curitiba é quase pedagógico, porque aborda uma temática muito concreta: a segurança do pedestre e o desenho de travessias seguras. Antes do evento, no entorno da Arena da Baixada, quatro cruzamentos receberam barras de LED no chão para alertar pedestres que poderiam estar usando o celular durante a travessia, reduzindo o risco de que a distração levasse alguém a atravessar a rua enquanto o semáforo estivesse fechado.

O valor dessa intervenção não está só na tecnologia em si, mas em outro ganho: uma cidade contemporânea desenhada para proteger as pessoas reais, com seus desafios cotidianos. E quando soluções assim são instaladas em áreas de grande fluxo por causa de eventos, elas tendem a virar o “novo normal” das pessoas que circulam nessas áreas o ano todo. A infraestrutura passa a ser parte da cidade, beneficiando muitas pessoas além dos participantes do evento, reduzindo acidentes e produzindo uma área mais segura todos os dias.

Se Curitiba nos ajuda a olhar o legado como método e infraestrutura cotidiana, Niterói contribui para que vejamos o legado como reputação e estratégia, especialmente quando falamos de temas emergentes como a economia azul. Após sediar o Tomorrow Blue Economy, a cidade passou a ser descrita (e percebida) como referência internacional no assunto.  

COP 30: força motriz para investimentos e impacto econômico relevante, elevando Belém a um novo patamar de visibilidade. / Foto: Rafa Neddermeyer (COP 30)
COP 30: força motriz para investimentos e impacto econômico relevante, elevando Belém a um novo patamar de visibilidade. / Foto: Rafa Neddermeyer (COP 30)

Fica evidente o ponto estratégico: eventos também são ferramentas de posicionamento. Quando uma cidade escolhe um tema coerente com sua vocação produtiva, com ativos locais e com uma narrativa de futuro, ela utiliza o evento como plataforma para atrair olhares e ecossistemas inteiros, por meio de empresas, universidades, políticas públicas, investimentos, turismo qualificado, e, em alguns casos, a atenção internacional. Niterói, com sua economia do mar e sua identidade costeira, transformou o Tomorrow Blue Economy em alavanca para ser percebida além de sede, mas como referência num tema de grande relevância nacional e internacional. Esse tipo de legado perdura a médio e longo prazo porque eleva o lugar da cidade no mapa mental das pessoas.

CONTINUIDADE INSTITUCIONAL

E aí chegamos a um caso que o mundo inteiro acompanhou recentemente: a COP30 em Belém. Megaeventos globais carregam em si um paradoxo complexo. Por um lado, expõem fragilidades de infraestrutura e de planejamento, e isso pode gerar críticas intensas. Por outro, justamente por elevarem a régua de exigência, podem destravar investimentos e acelerar mudanças que, de outra forma, demorariam décadas a serem feitas. Acompanhamos os desafios urbanos e impactos controversos associados às obras e à preparação da cidade para o evento. Mas ao mesmo tempo, pudemos entender que a COP30 funcionou como força motriz para investimentos e impacto econômico relevante, elevando Belém a um novo patamar de visibilidade e oportunidades.

O que isso nos ensina, para além do caso específico da capital paraense, é que legado faz parte do processo decisório do projeto. Se o evento só acontece na cidade, ele deixa pouco para trás. Se o evento abraça sua cidade-sede, e é usado como dispositivo de transformação, ele deixa muito mais para quem fica: infraestrutura que melhora a vida real cotidiana, governança, reputação que beneficia o futuro. A diferença está em tratar o evento como fim em si mesmo ou como meio estratégico.

Eu defendo que o legado de verdade nasce quando cidades-sede fazem três movimentos, quase sempre ao mesmo tempo: escolhem um propósito coerente com sua essência e seus desafios; traduzem esse propósito em soluções que funcionem no cotidiano de sua população; e constroem continuidade institucional para que a energia do evento se transforme em política, investimento e cultura de colaboração. Curitiba, Niterói e Belém, cada uma a seu modo, nos mostram pedaços dessa equação. 

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